1 de abr. de 2010

Cachaça

Ele levantou, vasculhou o bolso do jeans e entregou uma nota de 2 e um montinho de moedas para a pedinte com olhos de crack, que fez cara de intrigada pela repentina mudança de atitude, já que 20 segundos antes ele negara-lhe esmola, agradeceu e seguiu em direção ao bar seguinte. O jovem voltou à roda e explicou que o seu santo, oxossi, havia ordenado que entregasse dinheiro à mulher.

Senti, na hora, o ímpeto de pegar uma garrafa de cerveja e estilhaçá-la na cabeça do rapaz, mas na mesa só havia copos plásticos. Desejo quase incontrolável de profanar-lhe as crenças e insultar-lhe os santos todos. A mesma ira voraz e passageira que nos acomete quando alguém fede em excesso ao nosso lado no metro.

Instantes depois, mais calmo, pensei - a mediocridade alia-se sem dificuldades à suposta mediunidade; metafísica religiosa e bom senso quase sempre contrapõem-se.

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