26 de jul. de 2010

Maria

Era o único impulso imprevisível naquele amontoado de protocolos de conduta. Sabia o que devia vestir, como devia falar, horas de chegada e saída, procedimentos a serem realizados, particularidades do sistema, siglas internas e outras coisas. Não sabia como me portar à sua frente. Corava ao te encontrar na copa, nos corredores, elevadores e tentava te evitar a qualquer custo.

Mas, também a qualquer custo, arrumava motivos para correr ao seu setor e me afogar no seu perfume, na tatuagem semi visível do seu tornozelo, as mechas do seu cabelo, o seu decote.

18 de jul. de 2010

Galo

Mas minha vida vive um atropelo e parece que eu sou o único que não pode passar mal. Nem encher a cara e curtir a ressaca em paz. Tenho sempre que me preocupar em manter as mentiras, aprimorar desculpas, fingir que não bebo, que não cheiro e não fumo... E assim, mesmo não fumando nem cheirando, acabo gastando tempo tentando imaginar como alguém que não se imagina avaliado a todo momento agiria: finjo que sou natural.

Ainda acordar disposto para ser cobrado; saber demonstrar falso interesse ao ouvir as dicas de autoajuda empresarial que tanto abomino, engolir todo dia um presente cada vez mais ácido e sem graça. A todo momento alguém invade minha atenção, que está vidrada no texto e na música, para sugerir algo, perguntar se estou bem, o que estou fazendo, se estou com fome. ... mas agora senti um doce bom nos lábios e parece que a tensão dissipou um pouco, é a música fazendo efeito. Caso resolvesse reler o texto antes de postá-lo, coisa que não farei, tudo perderia o sentido.

13 de jul. de 2010

O naja

Não podia dizer que era falta do que dizer, afinal, a vida continuava agitada de maneira morna como sempre fora, mas era uma espécie de afasia. Não faltavam fatos, faltava língua para contá-los. Como se a língua mãe já não contivesse os conceitos corretos, ou como se a língua humana, rosada e inquieta, já estivesse tão gasta, tão rígida que não pudesse mais articular.

Foi assim que, sem maiores razões, largou faculdade trabalho cachorro apartamento CPF dívidas – a pagar e a receber – e refugio-se, a princípio por um ano, na casa de praia de uma parente meio surda (tia avó ou alguém igualmente distante).

Na cadência das ondas foi esquecendo do mundo. Os anos viraram: a proposta, três anos depois do um ano planejado, era investir o dinheiro ganhado nos bares em um quiosque próprio. A pele cada vez mais vermelha, o cabelo maltratado de sal, marcas no rosto de tanto sorrir.

Uma proposta boa apareceu e ele se perdeu no litoral.

9 de jul. de 2010

Oro



Acho que não era minha intenção te tomar ali no mato, feito bicho no primeiro cio. Foi você que me fez entrar naquele verde abafado falando que tinha uma trilha pra um casebre de não-sei-quem. Eu não acreditei mas não pensei duas vezes para correr ao teu encalço. Nunca deixaria de te seguir, ainda que você me implorasse, como implorou um dia. Ainda tento imaginar seus passos e em qual grama você tem se entregado nas tardes ensolaradas de sábado.

Daquela tarde em que você foi minha guardo cada marca de arranhão e mordida e, procurando bem, ainda acho grama enroscada no meu cabelo. Na imagem sua que ainda vive em minha mente (miragem esverdeada) seus joelhos continuam vermelhos e você gargalha, exausta, da minha proposta de fugir naquela música.

"Num fusca duas portas, dois amantes."

30 de jun. de 2010

Línguas rubras dos amantes
Sonhos sempre incandescentes
Recomeçam desde instantes
Que os julgamos mais ausentes

Ah, recomeçar, recomeçar
Como canções e epidemias
Ah, recomeçar como as colheitas
Como a lua e a covardia
Ah, recomeçar como a paixão e o fogo

25 de jun. de 2010

Regra dos três

No final das contas nós dois estávamos cobertos de razão. Você sempre foi auto-ajuda, não gostava de ver ninguém sofrendo, acreditava nos limites terapêuticos da tristeza humana, nos poderes do pensamento positivo. Preferia filmes leves, levinhos, bobinhos, e, mesmo nestes, evitava demorar o pensamento. Músicas, só aquelas que se encaixam facilmente a qualquer pessoa. (Penso que essa sua mania de querer se encontrar em tudo era um sinal agudo de carência. Ver-se refletida nas músicas simples, na arte de fácil assimilação, nos programas baixo-nível de televisão: coisas que acariciavam seu ego frouxo, defeituoso de nascença.)

Imitava Freitas dos Santos no oportunismo barato e na mornitude; maldita auto-confiança que te fazia acreditar no seu melhor, no melhor do mundo, no meu melhor. E ao mesmo tempo o mundo não passava de um seu-exterior; o universo se curvando à sua boa vontade, à sua segurança comprada na prateleira dos destaques de qualquer livraria, aos frutos que você necessariamente colheria a cada boa atitude. Era seu ego o vórtice de todo o cosmos. Fraternidade, respeito e compaixão utilizados em barganhas mesquinhas. Andava nas rua, fazia os trajetos, mas nunca se via no chão; não era uma igual.

Nunca roubou cerveja e chocolate do mercado, não por caráter ou princípio, mas por que podia ser você, um dia, a dona do mercado.

Eu era o completo oposto e sei que você não fazia idéia disso. Meu desprezo pela honestidade íntima chegou ao ponto de me fazer fingir que éramos iguais só pelo prazer de levar a vida a me enganar e a me ver enganando você. Andava sempre a baixo do chão, olhando o mundo lá no alto como se a regra fosse a desordem que nunca retribui, que não permite eqüidistância, equilíbrio, equivalências. Roubava chocolate/camisinhas/vinho no mercado e, na floricultura, pedia descontos até irritar. No final das contas, tudo, exceto as rosas (que você guardava no copo), acabava misturado dentro de você (fermentando, estourando, martelando, fecundando, embriagando). Minha desordem cafajeste estufando de mentiras a sua axiologia tão distinta da minha. Você não roubava nada com medo de ser roubada, mas nossas penas foram as mesmas. Passamos a vida inteira presos um ao outro, na dança elaborada e precisa das nossas mentiras.

27 de mai. de 2010

Interceptado

" Você sabe que as vezes, na rua, sinto vontade de falar com alguém e me vem à mente o dia em que a gente saiu para dar um jeito de arrumar um atestado médico para mim em plena quinta-feira. É pq aquele dia fez sol e eu procrastinei...faltei no trabalho, menti, fui mal na prova...é o tipo de momento que flutua na membrana da mente quando olho o teto branco do meu quarto, quando vejo a Barra - Funda correr pela janela do trem; ai sinto vontade de contar para alguém, mas não sei o que dizer.

Entre as minhas idéias e o mundo, suponho, há um interstício intransponível. Uma catedral de afasia a ser atravessada. A única forma de reduzi-la é escrevendo - em palavras escritas fica mais fácil imprimir ao mundo exterior essa coisa impalpável que se move na mente quando olho o vazio. ( e então sinto inveja de quem sabe falar o que pensa como se fosse uma verdade simples e absoluta... como se para cada palavra dita apenas um sentido pudesse ser empregado por quem ouve... esse tipo de gente que entra em uma roda de conversa e em poucos segundos faz comentários tão superficiais e despretensiosos que tem-se a impressão de que eles mesmos propuseram os assuntos).

Mas é certo que ninguém leria um papel entregue por um jovem de olhos perdidos, olhos mais velhos que o resto do corpo, exceto, talvez, pelas mãos também velhas - como se os olhos e as mãos tivessem nascido antes e esperado alguns anos pelo resto do corpo. A solução seria sentar na calçada, a exemplo do que fazem os mendigos daquela cidade sem vento, e escrever a minha história no chão. Esperar que, ao invés de moedas oxidadas, me lessem.

Mas por quem eu transporia esse vão de idéias e palavras?"